"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar."
Caius Julius Caesar

11 agosto, 2010

Catalunha Goes Down

(Mensagem originalmente postada em http://opaoecirco.blogspot.com a 28 de Julho)


Hoje, o Parlamento da Catalunha proibiu as touradas em toda a Região Autónoma - http://http//www.publico.pt/Mundo/parlamento-da-catalunha-acabou-hoje-com-as-corridas-de-touros_1449092

Poderia parecer mais um avanço na luta que muitos travam pelos direitos dos animais. A partir de 2012, os touros catalães vão ter todos uma vida sossegada... No entanto, esta medida não só é ridícula, visto que proíbe a tourada - e já explico porquê - e está carregada de uma ameaça insidiosa e sombria que vai aparecendo na Catalunha.

O debate entre pró e anti-taurinos trava-se bastante em Espanha, devido à forte implantação dessa tradição no país vizinho. Devido a uma implantação mais forte em Espanha do que em Portugal, por exemplo, o debate é muito mais intenso e violento lá do que cá. Mas já todos conhecemos os argumentos: os pró-taurinos falam da tradição e defendem o desporto que eles amam, e os anti-taurinos falam do sofrimento dos animais. Não há mal nenhum em haver essa discussão, também há quem goste de futebol e quem não goste. No entanto, esta questão mete os touros - os grupos de defesa dos direitos dos animais falam do sofrimento dos bichos durante a tourada e do sadismo do espéctaculo.

Eu pessoalmente nunca me senti atraído pela tauromaquia, é um desporto que não gosto. No entanto, é ridículo proibir-se algo de que se não se gosta, e muitos grupos anti-taurinos, com uma agenda de esquerda e de engenharia social por trás, ambicionam mesmo abolir a tourada. Escusado será dizer que os animais são coisas - e, não fiquem chocados - é verdade. O mundo divide-se entre pessoas e coisas, e os animais são coisas que merecem especial respeito e consideração. É por isso que é ridículo o termo 'direitos dos animais' - eu pessoalmente, acho-o ofensivo, porque um direito é algo inerente e indisponível a uma pessoa, contraposto por deveres. Ora os animais nunca terão a inteligência para compreender esses conceitos abstractos, pelo que "direitos" só as pessoas têm. E, se virmos bem, os animais têm todos uma utilidade, tal como as coisas, para as pessoas. As vacas e os porcos servem para nossa alimentação, e os touros, servem para, a tourada, uma expressão cultural perfeitamente legítima, visto que não os põe em risco de extinção. Se me falam de sofrimento, então estão a esquecer-se dos campos de concentração de galinhas, e das experiências em ratos de laboratório. Além disso, a tourada é uma expressão de uma tradição milenar, de pôr o homem contra a natureza - e se nos refugiarmos numa barricada racionalista e rejeitarmos essa natureza instintiva e quase 'animal' do homem, estamos a ser irracionais. O desafio à natureza e às suas forças é algo feito desde o início dos tempos e está enraizada na nossa cultura e mente, e é minimamente pretensioso querer-se sobrepor a isso através da desculpa da racionalidade.

A minha atitude em relação às touradas reflecte o meu pensamento liberal - para um conservador, elas devem manter-se porque são uma tradição e parte do património cultural; para um socialista, a sociedade tem de progredir e abolir essas tradições irracionais. Eu, abstraindo-me do facto de pessoalmente gostar ou não, prefiro sempre a situação em que nada se faz, deixando a sociedade avançar para onde quiser. Com o tempo, talvez as forças espontâneas da sociedade farão decair as touradas a um ponto que não se tornem viáveis - mas não cabe ao Estado impulsionar essa mudança através de proibições autoritárias. Eu posso não gostar, mas não imponho a minha visão - e aí é que reside uma mentalidade virada para uma sociedade livre e para a liberdade.

Mas por detrás desta decisão encontra-se uma realidade insidiosa e perigosa na Catalunha. Como sabemos, Espanha não é uma Nação, e dentro dela tem várias nacionalidades - Castelhanos, Catalães, Bascos, Galegos, etc. Desde o fim da ditadura franquista que os catalães têm feito inúmeras conquistas no que toca à sua autonomia e à afirmação da sua nação e da sua língua. Mas começa-se a ir longe de mais. Tudo começou com a obrigatoriedade de tudo na Catalunha ter de estar em catalão (juntamente com outras línguas), mas sempre em catalão. Excluiu-se o ensino em castelhano no ensino público, sem se dar a oportunidade de escolha - ter tudo, menos o castelhano, em catalão, é obrigatório. E recentemente, o Partido Socialista espanhol, ao precisar dos catalães nacionalistas-esquerdistas da Esquerda Republicana, tem cedido às suas exigências altamente perigosas e autoritárias, começando uma purga na Catalunha de tudo o que fosse Espanhol. A tourada, não estando muito fortemente implantada na Catalunha, foi agora afastada, porque é demasiado espanhola - não por razões de direitos dos animais.

Escusado será dizer que há uma grande preocupação na Catalunha - é que 60% da população considera-se "espanhola" e fala castelhano como língua materna. No telejornal da RTP, hoje à noite, um catalão "hispano-hablante" queixava-se que a Catalunha está sob controlo de uma elite intelectual e de uma minoria profundamente anti-espanhola, minoria essa que quer homogeneizar a Catalunha, que sempre se pôde orgulhar de ser a zona mais cosmopolita de Espanha, à força. A proibição das touradas foi apenas um primeiro passo.

O crescimento do nacionalismo exacerbado na Catalunha abre um caminho de conflito e de tensão - acompanharei com atenção a evolução do novo nacionalismo catalão, do anti-espanholismo e da vindicta catalã contra o passado repressivo - o facto de os catalães terem sido oprimidos durante séculos não lhes dá o direito de oprimir os outros.

1 comentário:

  1. Duas coisas: os animais não são coisas, o que não quer dizer que sejam pessoas.. são animais e pronto! O direito vigente em Portugal (o Código Civil não é todo o direito português, claro está) reflecte isso mesmo. Enfim, o Prof. Fernando Araújo escreveu um livro sobre isso muito interessante (e bom), remeto para lá.
    O que aconteceu na Catalunha foi uma resposta ao imperialismo castelhano, depois de terem negado aos catalães o estatuto de nação. Estavam à espera do quê? Não chegou ter um milhão e meio de pessoas na rua, em protestos ... e muitas delas de certeza que têm o castelhano como primeira língua...
    Outra coisa: isso de haver 60% de espanhóis na Catalunha deve-se ao maquiavelismo do amigo Franco que andou a distribuir o povo exactamente como um baralho de cartas. Essa era, aliás, uma proposta de Maquiavel para mitigar a resistência ao poder do príncipe. Não é por haver lá mais espanhóis que catalães que o Estado deixa de ser a Catalunha. Por essa ordem de ideias daqui a uns aninhos poderíamos ir ao Luxemburgo dizer que aquilo é nosso!
    Cumprimentos, caríssimo co-senador. Obrigado por nos ter escrito.
    (a propósito, nunca mais me esqueço de uma vez em que com uns amigos fomos abordados pela polícia catalã; quando começámos a falar espanhol logo o agente de autoridade nos perguntou se falávamos inglês...)

    ResponderEliminar